O GRUPO DE TRABALHO
Ao longo de mais de 15 milhões de anos que já dura a saga do ser humano na Terra, não foram poucas as vezes em que se viu diante de desafios praticamente impossíveis de serem superados e por isto teve de construir um certo tipo de organização que lhe permitisse sobreviver.
Considerando que as leis da natureza são implacáveis, só foi possível a sobrevivência dos indivíduos que conseguiram desenvolver uma forma mais adequada de organização que lhes permitisse obter seu alimento sem serem vítimas de seus predadores.
Os estudos paleontológicos mostram claramente que a forma mais eficaz de organização dos seres humanos ao longo de milhões de anos foi a tribo.
Os indivíduos desta tribo buscavam um local o mais protegido possível no qual podiam ser abrigados os membros mais fracos do grupo. Eles sempre tinham uma liderança e o grupo não podia ficar muito grande pois dependia da disponibilidade de alimentos na região. A obtenção de alimentos ficava a cargo do grupo de caçadores, normalmente homens.
A sua área de caça era naturalmente limitada pois, ficar longe do abrigo durante a noite trazia um risco muito grande e por isto os caçadores tinham de sair quando o sol nascia e retornar em tempo de trazer a caça para os que ficavam no abrigo e poderem descansar contando uns com os outros.
Considerando todas as circunstâncias, o bando de caçadores normalmente não ficava longe de 8 a 10 indivíduos.
Até hoje, observando as tribos de nativos que podem ser encontrados em diversas partes do mundo, podemos constatar este arranjo básico.
Utilizando este pano de fundo, descrito acima, Antony Jay desenvolveu seu livro "O Homem S.A" em que situa, com argumentos antropológicos, a importância dos grupos nas organizações modernas.
A organização em grupos, segundo o autor faz parte da herança genética do ser humano e ele busca através da interação com outros indivíduos, a proteção mútua.
A premissa é de que a formação de "bando de caçadores" de cerca de 10 pessoas, normalmente homens, faz parte de nossa própria natureza, pois estes grupos foram o instrumento da sobrevivência ao longo da evolução.
Portanto, uma organização - por maior que seja o seu quadro de pessoal - será tanto mais eficiente quanto maior for a quantidade de grupos de até 10 membros, que conseguir reunir. Pode ser facilmente constatado o quanto é eficaz este arranjo, pois, cada vez que alguma tarefa complexa precisa ser realizada, intuitivamente nos organizamos em um grupo de trabalho que se encarrega do projeto.
Claro que não podemos esquecer-nos da liderança, mas, esta também faz parte de nossa natureza e podemos observar facilmente a chamada liderança situacional. Isto nada mais é do que a nossa submissão à liderança do indivíduo que desfruta do maior respeito do grupo naquelas circunstâncias.
Podemos observar claramente como este mecanismo funciona quando um líder deixa um grupo com forte organização. Este grupo tende naturalmente à sua dissolução caso não encontre rapidamente um outro líder que substitua o anterior.
Nas empresas quando se promove a rotação de chefias sem levar em consideração estas circunstâncias, corre-se o risco de aumentar muito a rotatividade de pessoal.
Um dos mecanismos mais poderosos para a preservação dos grupos encontra-se em si mesmo que é a tendência para aprenderem uns com os outros e interagirem no sentido de combinarem estratégias para serem mais bem sucedidos. Tome-se como exemplo os times nos esportes. Quanto melhor agirem como grupo coeso, melhores serão os resultados.
Também em relação às recompensas, os grupos têm particularidades uma vez que apenas os membros do próprio grupo têm condições de avaliar a contribuição de cada um de seus membros e por isto sempre deverá ser recompensado o grupo. Fazendo uma metáfora, "Não importa quem atirou a flecha. Foi o grupo que levou a caça ao ponto certo para o abate".
Aí está grande parte da explicação para o fracasso ou sucesso de um jogador quando atua por uma ou outra equipe. Sua interação com o grupo é fundamental.
Lembremo-nos de que a tendência para a formação destes grupos sob uma liderança situacional é tão forte que muitas vezes os mesmos se desenvolvem em oposição aos objetivos da empresa.
Assim, uma das tarefas primárias da empresa é conseguir o maior número possível de grupos eficientes, todos indo na mesma direção, todos "caçando" em proveito da companhia ou "tribo".
Embora o próprio Antony Jay afirme que não tem como provar as premissas que expõe, certamente não lhe faltam provas circunstanciais.
Uma destas provas é que o homem consegue manter animada troca de informações mesmo estando um de costas para o outro. No ambiente de caça, esta sempre foi uma característica muito útil e certamente foi preservada pela seleção natural.
Lourival Karsten - Administrador e Consultor
Julho 2009. |